sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Infância e lembranças

Lembro da época da escola em que me sentia sozinha e andava pelos cantos incapaz de interagir com outros alunos. Período difícil, mas hoje compreendo que sou diferente deles e que não havia mesmo como eu ser aceita. Eu tinha ideias diferentes, pensamentos sobre pedras deixadas pelo caminho, complexidade da vida, gostava de ler e tinha perguntas que ninguém sabia responder e que procuravam nem questionar. Eu era a menina sardenta que mais parecia menino e que todos tinham um apelido para dar. Apelidos que eu não gostava e que me faziam sentir feia e estranha.
Era boa em Língua Portuguesa, sempre tirava nota boa em redação. Me orgulhava disso. Gostava de Ciências, aquela parte dos reinos. Pensei até em ser bióloga e trabalhar com animais. Mas isso foi a muito tempo.
Naquela época eu via os professores como autoridades, como pessoas a quem eu deveria chamar de senhor e senhora e que detinham todo o meu respeito. Queria ser como eles, hoje percebo o quanto eles são desmerecidos por quem mais deveria incetiva-los.
Lembro da escola como um mundo a parte. A arquibancada, a quadra de futsal e a quadra de areia, a sala de aula, a merenda, o parquinho, a diretoria, o bebedouro, a biblioteca. No fundo parece que nunca estive la. Parece que tudo pode ter sido apenas um sonho e não sei distinguir o que é real do que é imaginário.
Não sei dizer se minha infância foi feliz. Só consigo essa resposta se comparar com a infância de outras crianças que de repente não tiveram o mesmo que eu. Algo que sempre vou lembrar com muito amor é que do fato do meu pai querer me dar tudo o que podia e lutar pelo que não podia. A vontade dele em me dar o melhor me faz pensar que eu tive muita sorte.
Falar dessa época me deixa em meio a uma confusão de sentimentos e acho que a melancolia predomina.
Lembro das vezes em que fui ao sitio dos meus avós em especial de uma vez que eu brincava com meus primos no grande quintal da frente da casa e minha mãe avisou que já era hora de ir embora. Lembro que com tristeza tomei banho e vesti uma roupa de cor clara que ela insistia em me pedir para tomar cuidado para não sujar. Depois disso não lembro de ter voltado ao sitio.
E talvez a lembrança mais estranha seja da minha mãe tentando esconder o choro quando nos mudamos do interior para a capital do estado. Ela chorava baixinho enquanto o carro da mudança avançava rápido pela estrada e aquilo me deixou pensativa. Não sabia o quanto aquela mudança estava fazendo mal a ela. Penso que os pais e os filhos poderiam ser mais próximos e permitir se conhecerem. Isso mudaria tanto na vida de ambos.
Além do Tom, meu gato que me sumiu na mudança, ficaram para trás tantas coisas. Acho que uma parte de mim, de quem eu era. É difícil falar de sentimentos que senti a quase 20 anos atrás, mas algo é certo, eu não seria esta mesma se la tivesse ficado. Tenho um pouco de medo até de imaginar o que teria sido. Escolho o agora por não sabe como seria se tudo fosse diferente.

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